Neuropatia Periférica: O Que Causa Aquele Formigamento nos Pés e Como Tratar

Formigamento, dormência ou dor nos pés podem ser sinais de neuropatia periférica. Uma revisão do JAMA 2026 resume o que há de mais atual sobre diagnóstico e tratamento.

Formigamento nos pés é sinal de neuropatia periférica? O que a ciência mais recente diz

Ilustração minimalista de nervo periférico com fibras afinadas, em tons de azul-petróleo e dourado, sobre fundo branco


Em 30 segundos

Se você sente formigamento, dormência ou dor nos pés — especialmente à noite — você não está sozinho. A neuropatia periférica, que é o dano aos nervos fora do cérebro e da medula, afeta aproximadamente 1 em cada 100 adultos no mundo, e até 1 em 10 pessoas com mais de 60 anos.

Uma revisão abrangente publicada no JAMA em janeiro de 2026 — uma das revistas médicas mais importantes do mundo — reuniu 100 estudos sobre o tema para oferecer um panorama atualizado do diagnóstico e tratamento da neuropatia periférica do tipo mais comum, chamada polineuropatia distal simétrica (ou neuropatia comprimento-dependente).

O que você vai encontrar neste post:

Limite principal desta revisão: trata-se de uma síntese de estudos já existentes, não de um experimento novo. A qualidade dos estudos incluídos é variável, e algumas formas menos comuns de neuropatia não foram cobertas em detalhe.


O que esta revisão NÃO prova?

Antes de continuar, é importante ancorar as expectativas:


Quais são as mensagens principais?

Nível 1 — O ponto principal: A neuropatia periférica começa nos pés porque os nervos mais longos são os mais vulneráveis — e o diabetes é a causa número um.

Nível 2 — O contexto importante:

Nível 3 — Uma nuance que vale saber:


Entendendo a neuropatia periférica

Qual é o problema?

O sistema nervoso periférico funciona como uma rede de cabos elétricos que conecta o cérebro e a medula ao resto do corpo. São esses cabos — chamados nervos periféricos — que permitem que você sinta o toque de uma superfície, perceba temperatura, sinta dor e mova os músculos com precisão.

A neuropatia periférica acontece quando esses cabos se danificam. Dependendo de quais "fios" são afetados, os sintomas variam:

Tipo de nervo afetadoSintomas
Sensorial (grosso calibre)Dormência, formigamento, perda de equilíbrio
Sensorial (fino calibre)Dor em queimação, agulhadas, choques elétricos
MotorFraqueza, atrofia muscular, reflexos reduzidos
AutonômicoTontura ao levantar, boca seca, disfunção erétil, alterações intestinais

O tipo mais comum — a polineuropatia distal simétrica — começa nos dedos dos pés. Por quê? Porque os nervos que chegam até lá têm até 90 centímetros de comprimento e precisam de um altíssimo suporte metabólico para funcionar. São os primeiros a sofrer quando algo perturba esse equilíbrio — seja o açúcar elevado do diabetes, uma toxina, ou uma deficiência nutricional.


Como foi feita esta revisão?

Esta é uma revisão narrativa com busca sistemática, publicada no JAMA (Journal of the American Medical Association) em janeiro de 2026. Os autores são da Clínica Mayo, um dos maiores centros de neurologia do mundo.

O nível de evidência desta revisão é moderado: é uma síntese robusta da literatura recente, mas inclui estudos de qualidade variada e não realizou meta-análise quantitativa própria.


O que a revisão encontrou?

Quão comum é a neuropatia periférica?

A neuropatia periférica afeta aproximadamente 1 em cada 100 adultos no mundo. Esse número sobe para 6 a 10 em cada 100 pessoas acima dos 60 anos. A neuropatia diabética, por si só, afeta cerca de 206 milhões de pessoas no mundo e foi classificada em 2021 como a quinta maior causa neurológica de incapacidade pelo Global Burden of Disease.

Quais são as causas mais comuns?

Em países como o Brasil, EUA e Europa, as principais causas são:

CausaO que significa
DiabetesAçúcar elevado por anos danifica os nervos gradualmente
ÁlcoolToxicidade direta ao nervo, frequentemente combinada com deficiência de tiamina
QuimioterapiaEspecialmente taxanos, platinas, alcaloides da vinca e bortezomibe
Deficiência de B12Comum em veganos, após cirurgia bariátrica, uso crônico de metformina ou omeprazol
Causas hereditáriasCharcot-Marie-Tooth e outras (até 1/3 das neuropatias "sem causa" são provavelmente hereditárias)
Gamapatias monoclonaisProteínas anormais no sangue que danificam nervos

Atenção: até 27 em 100 adultos com neuropatia confirmada não têm uma causa identificada mesmo após investigação detalhada.

O diabetes e a neuropatia: o que os números mostram

Cuidado: a correção rápida do açúcar pode piorar a dor

Existe uma condição chamada neuropatia induzida pelo tratamento do diabetes (antes chamada de "insulin neuritis"). Ela pode ocorrer após queda rápida de HbA1c (mais de 2 pontos percentuais em 3 meses). Uma coorte retrospectiva com 954 pacientes mostrou que uma queda maior que 4 pontos percentuais em 3 meses foi associada a risco acima de 80% de desenvolver essa complicação. A condição se manifesta como dor intensa e sintomas autonômicos nas primeiras 8 semanas após a redução brusca do açúcar.

Quimioterapia e neuropatia: quando o remédio traz um custo neurológico

A neuropatia induzida por quimioterapia (CIPN) afeta aproximadamente 50 em cada 100 pacientes que recebem quimioterápicos neurotóxicos. Pode limitar as doses de tratamento e persistir por anos após o fim da quimioterapia. Não há medidas preventivas eficazes comprovadas até o momento.

Os quimioterápicos mais associados à CIPN são: taxanos (paclitaxel), alcaloides da vinca (vincristina), platinas (cisplatina, oxaliplatina) e bortezomibe.

Neuropatias hereditárias: Charcot-Marie-Tooth

A doença de Charcot-Marie-Tooth (CMT) é a neuropatia hereditária mais comum, com prevalência de 10 a 30 casos por 100.000 pessoas. Ela afeta tanto nervos motores quanto sensoriais, causando fraqueza e atrofia nas extremidades distais, frequentemente associada a deformidades dos pés (pé cavo, dedos em garra). A apresentação antes dos 20 anos ocorre em 70 em 100 pacientes. Tem mais de 100 causas genéticas conhecidas. O sequenciamento de nova geração (NGS) — exame que analisa milhares de genes de uma só vez — é a ferramenta diagnóstica mais eficiente para identificar o subtipo genético.

Amiloidose hereditária por transtirretina: um avanço terapêutico real

Esta forma de neuropatia hereditária hoje conta com tratamentos específicos. Um ensaio clínico com 130 participantes mostrou que 29,7 em 100 pacientes tratados com diflunisal tiveram estabilização neurológica, comparado com 9,4 em 100 no grupo placebo. Ensaios de fase 3 com patisiran, vutrisiran e eplontersen — medicamentos que reduzem a produção da proteína defeituosa — mostraram melhora marcada nos escores de comprometimento neurológico em comparação com placebo aos 15-18 meses de tratamento.


Quais exames são necessários?

O diagnóstico da neuropatia periférica é primariamente clínico — baseado na história e no exame físico. Os exames complementares servem para identificar a causa e, em casos selecionados, confirmar o tipo de neuropatia.

Exames de sangue iniciais recomendados por diretrizes:

  1. Glicemia de jejum (ou HbA1c) — para diabetes
  2. Vitamina B12 com ácido metilmalônico (com ou sem homocisteína) — para deficiência de B12
  3. Eletroforese de proteínas séricas com imunofixação — para gamapatias monoclonais

Eletroneuromiografia (ENMG): avalia a função dos nervos e músculos. Pode mudar o diagnóstico ou manejo em 24 a 43 em 100 pacientes avaliados por neuropatia periférica. Não é obrigatória quando a causa é clara (ex: neuropatia diabética típica e simétrica).

Biópsia de pele: útil quando se suspeita de neuropatia de fibras finas (dor e temperatura preservadas, mas sensação de toque normal). Tem sensibilidade de 80% e especificidade de 90% para esse diagnóstico.


🧪 Teste rápido

Os sintomas da neuropatia periférica do tipo mais comum costumam começar:

a) Nas mãos b) No rosto c) Nos dedos dos pés d) Na coluna

Resposta: c) Nos dedos dos pés. Os nervos mais longos do corpo são os que chegam até os artelhos — por isso são os primeiros a ser afetados. Quando os sintomas chegam até os joelhos, frequentemente os dedos das mãos também já estão comprometidos (os nervos têm comprimentos semelhantes).


Quais medicamentos a ciência apoia para a dor neuropática?

Os medicamentos de primeira linha para dor neuropática são três classes principais:

1. Ligantes do canal de cálcio α2-δ (gabapentinoides)

2. Inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSN)

3. Antidepressivos tricíclicos (ATC)

Sobre a combinação de medicamentos: adicionar um segundo agente de classe diferente pode trazer benefício adicional. Esta estratégia é apoiada por evidências.

Sobre opioides: não são recomendados para tratamento de dor neuropática.

Estimulação da medula espinal (neuromodulação invasiva): Em estudo com neuropatia diabética, 79 em 100 pacientes com estimulador medular atingiram ≥50% de melhora da dor aos 3 meses, comparado com 5 em 100 com tratamento convencional. É opção para casos refratários.


O que isso significa na prática?

O prognóstico é honesto, mas não desolador:

Cuidados práticos que fazem diferença:


Perguntas frequentes

😰 Medo

Neuropatia periférica é grave? Depende da causa e da extensão. A maioria das pessoas com neuropatia periférica do tipo mais comum (distal, simétrica) mantém função razoável com acompanhamento e tratamento adequados. Casos graves com fraqueza intensa, perda de equilíbrio importante ou formas rapidamente progressivas requerem avaliação neurológica urgente.

A neuropatia pode levar à amputação? A neuropatia em si não causa amputação diretamente. Contudo, quando combinada com doença vascular (comum no diabetes), a perda de sensação impede que o paciente perceba feridas nos pés, que podem progredir para infecções graves. A inspeção diária dos pés e cuidados preventivos reduzem muito esse risco.

A neuropatia pode comprometer a respiração ou engolir? A forma mais comum (distal, simétrica) raramente afeta a respiração ou a deglutição. Formas atípicas e raras — como a síndrome de Guillain-Barré — podem fazer isso e são emergências médicas. Se você tiver piora rápida de fraqueza em membros ou dificuldade para respirar ou engolir, procure emergência imediatamente.

A dormência pode se espalhar para o corpo todo? Na neuropatia distal simétrica, os sintomas tipicamente sobem pelas pernas até os joelhos antes de atingir as mãos. O tronco raramente é afetado nas formas comuns. Progressão muito rápida ou padrão diferente deve ser avaliado por neurologista.


🏠 Dia a dia

Posso continuar dirigindo com neuropatia? Depende do grau de comprometimento motor e sensorial. Neuropatias leves com perda sensorial nos pés podem não impedir a direção. Fraqueza significativa nas pernas ou nos pés, porém, pode comprometer o uso dos pedais e deve ser avaliada individualmente com seu médico e, se necessário, com perícia médica.

Posso praticar exercício físico com neuropatia? Sim, e o exercício físico é frequentemente encorajado. A fisioterapia com foco em equilíbrio e marcha pode reduzir o risco de quedas. Exercícios aquáticos são especialmente bem tolerados por pessoas com dor neuropática. Evite atividades com alto risco de lesão nos pés caso tenha perda de sensação.

A neuropatia periférica piora com o frio? Alguns pacientes relatam piora dos sintomas no frio, especialmente queimação paradoxal. Isso é mais descrito na neuropatia por oxaliplatina (quimioterapia para câncer colorretal), que provoca disestesia ao frio de forma aguda.


💊 Tratamento

Quais são os remédios de primeira escolha para a dor neuropática? As três classes de primeira linha são: (1) ligantes α2-δ (gabapentina e pregabalina); (2) inibidores de recaptação de serotonina e noradrenalina como duloxetina e venlafaxina; e (3) antidepressivos tricíclicos como amitriptilina e nortriptilina. A escolha entre eles depende das suas outras condições de saúde, medicamentos em uso e perfil de efeitos adversos. Converse com seu médico sobre qual é mais adequado para você.

Gabapentina e pregabalina viciam? São medicamentos que podem gerar dependência física e psicológica, especialmente em pessoas com histórico de uso de substâncias. Não devem ser interrompidos abruptamente. Use sempre conforme orientação médica e informe ao seu médico qualquer uso recreativo ou dificuldade para parar.

Vitamina B12 ajuda na neuropatia? Apenas se houver deficiência de B12. A reposição de B12 em quem tem deficiência confirmada pode estabilizar ou melhorar os sintomas, especialmente se iniciada precocemente. Em pessoas sem deficiência, a suplementação não tem benefício comprovado.

Vitamina B6 (piridoxina) pode piorar a neuropatia? Sim. Suplementação prolongada acima de 100 mg/dia pode causar neuropatia sensorial irreversível. Mesmo doses de 50 mg/dia por mais de 6 meses foram associadas a neuropatia em alguns casos. Não use suplementos de B6 sem indicação médica.

A maconha medicinal serve para a dor neuropática? Não foi abordado nesta revisão. Existem estudos sobre canabinoides para dor crônica, com resultados heterogêneos. Esta é uma decisão que deve ser discutida com seu médico considerando o contexto clínico individual, a legislação local e a qualidade das evidências disponíveis.


🔮 Futuro

Neuropatia periférica tem cura? Depende da causa. Neuropatias inflamatórias tratadas precocemente podem melhorar bastante. Neuropatias por toxinas podem melhorar após cessar a causa. Neuropatias diabéticas raramente revertem completamente, mas podem ser estabilizadas. Neuropatias hereditárias como CMT não têm tratamento modificador de doença disponível na maioria dos subtipos, embora pesquisas estejam em andamento. A amiloidose hereditária por transtirretina hoje tem tratamentos que podem modificar a progressão.

A neuropatia vai progredir inevitavelmente? Não necessariamente. Com identificação e tratamento da causa, muitas neuropatias se estabilizam. O dano já instalado é difícil de reverter, mas a progressão pode ser interrompida em vários casos.

Existem novos tratamentos sendo desenvolvidos? Sim. Para neuropatia diabética, pesquisas com agentes que atuam nos mecanismos de dano metabólico continuam em andamento. Para a amiloidose por transtirretina, medicamentos que silenciam o gene defeituoso (patisiran, vutrisiran, eplontersen) foram aprovados recentemente e representam avanço significativo.


✋ Ação

O que eu faço agora se suspeito de neuropatia? Procure seu médico de referência (clínico geral, endocrinologista se diabético, ou neurologista). Leve uma descrição detalhada dos sintomas: onde começaram, há quanto tempo, como evoluíram, se são simétricos. Mencione todos os medicamentos em uso, incluindo suplementos, consumo de álcool e histórico familiar de neuropatia.

Quais sinais indicam urgência neurológica? Fraqueza de rápida instalação em membros, dificuldade para respirar, deglutir ou fechar os olhos, assimetria importante dos sintomas, dor intensa de início súbito — estes sinais devem levar à emergência ou a avaliação neurológica urgente.


O que posso fazer a partir de agora?

Anote seus sintomas: quando começaram, onde são, se são simétricos, se pioram à noite ou com o frio

Liste todos os medicamentos em uso, incluindo suplementos vitamínicos — especialmente vitamina B6, vitaminas do complexo B em doses altas, e qualquer quimioterápico passado ou atual

Pergunte ao seu médico:

Se você tem diabetes: pergunte sobre o controle da HbA1c, mas evite mudanças muito bruscas — a queda rápida pode paradoxalmente piorar a dor

Inspecione seus pés diariamente se tiver perda de sensação — feridas despercebidas são um risco real

Não inicie suplementos de B6 por conta própria em doses altas — podem piorar a neuropatia

Não interrompa medicamentos neurológicos abruptamente sem orientação médica

Não aguarde meses se os sintomas estiverem piorando rapidamente — piora em dias a semanas é sinal de urgência

📞 Busque emergência imediatamente se: houver fraqueza de rápida progressão, dificuldade para respirar, engolir ou manter o equilíbrio


⚕️ IMPORTANTE


Referência científica: MAUERMANN, M. L.; STAFF, N. P. Peripheral neuropathy: a review. JAMA, Chicago, v. 335, n. 3, p. 255-266, jan. 2026. DOI: 10.1001/jama.2025.19400. Disponível em: https://doi.org/10.1001/jama.2025.19400. Acesso em: 07 mar. 2026.


✍️ Dr. Thiago Guimarães Médico Neurologista | CRM-SP 178.347 Especialista em Distúrbios do Movimento e Neurogenética Hospital das Clínicas da FMUSP

📍 Consultório: Rua Cristiano Viana, 328 – Conj. 201 – Pinheiros, São Paulo/SP 🎬 YouTube: Neuroepifanias 🌐 Site: drthiagoguimaraesneuro.com

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a consulta médica.

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